Livros3 March 2007 8:25 pm

Já tinha escrito que férias são sinónimo de leitura para mim. Antes de partir de férias separei alguns livros, e pensei que, como sempre acontece, não teria tempo ou vontade de os ler todos. Só me esqueci de alguns pormenores. A começar, o facto de viajar só, o que só por si convida a ler mais, depois, o facto de estas férias terem implicado muitas viagens de autocarro. Por tudo isto, muito rapidamente tinha lido todos os livros que tinha levado, com a excepção de um, um que já tinha ido no Verão de 2006 comigo para Portugal, em Outubro foi até Paris e no Natal tinha voltado a Portugal. Falo de "Cão como nós" de Manuel Alegre. Começo por esclarecer que não comprei o livro, ele foi uma prenda da minha madrinha e, dado que nunca simpatizei muito com Manuel Alegre, certamente que nunca o compraria.

Depois de o ler duas vezes, isto porque gostei tanto que na viagem de avião de regresso voltei a lê-lo, acho curioso como um livro muito pequeno, que se lê em cerca de meia-hora, conseguiu duas coisas muito distintas: a primeira foi fazer-me perceber melhor a ligação que tantas pessoas têm com os seus animais de estimação, em especial com os cães. A segunda foi levar-me a olhar para Manuel Alegre de uma forma muito diferente. Fernando Pessoa dizia que o poeta é um fingidor, mas uma declaração de amor como a que Manuel Alegre escreve ao cão falecido tem de ser verdadeira, e é das coisas mais belas que li nos últimos tempos.

Livros19 February 2007 12:01 pm

Férias são também sinónimo de leitura, em especial durante as viagens.

Num dos livros que li durante estas férias ("Num País Livre" de V.S. Naipul) encontrei uma frase que acho que se poderia aplicar ao que sinto muitas vezes:

"Procurava companhia mas precisava de solidão; procurava chamar a atenção mas, ao mesmo tempo, queria passar despercebido".

Livros, Sociedade14 January 2007 8:27 pm

O Presidente da República foi agraciado com o doutoramento honoris causa em Literatura pela Universidade de Goa. Enquanto decorria a cerimónia um grupo de estudantes protestava energicamente, o que levou os jornalistas a pensarem que se tratava de um protesto pelo primeiro doutoramento honoris causa entregue pela instituição ser para um cidadão da ex-potência colonial, o que contrariava aquela ideia que os goeses mantinham uma boa imagem dos portugueses. Na verdade, os motivos do protesto eram mais evidentes, os estudantes protestavam com quem teve a ideia de atribuir um doutoramento em Literatura ao Prof. Cavaco Silva. O homem que não sabia quantos cantos tem Os Lusíadas, que confundia Thomas Mann com Thomas More é agora doutorado em Literatura. Será que para manter a coerência o próximo doutorado será George W. Bush?

P.S. Será que o nosso Presidente não achou que estavam a gozar com ele ao atribuirem-lhe um doutoramento em Literatura? 

Livros1 September 2006 6:01 pm

Se os filmes das férias podem ser considerados lamechas, o que dizer dos livros?
Estas duas semanas foram também a oportunidade para ler muita coisa: revistas, muitos jornais e alguns livros.
Pela primeira vez li qualquer coisa de Nicholas Sparks, um autor a quem eu associava o rótulo de “lamechas”. Esta atitude que tantas tomam de julgar o que desconhecem. É justo referir que gostei deste “Laços que Perduram” e certamente hei-de adquirir mais livros dele. Mas a minha leitura favorita destas férias, e que achei até inspiradora, foi “O Zahir” de Paulo Coelho. Um livro que me fez reflectir muito, tal como há uns anos atrás “O Alquimista” tinha feito.
Desculpem se não concordo com os que consideram esta escrita como sendo “light”. Ou talvez isso seja um elogio, porque num mundo cheio de problemas, é bom ler um livro assim “leve”, que se lê de uma só assentada, nos deixa mais optimistas e, ao mesmo tempo, nos faz reflectir sobre a vida.
Também houve livros de que gostei menos e houve dois que ficaram a meio, mas prefiro falar das coisas boas!

Cinema, Livros23 May 2006 5:23 am

Acabei por ver o filme “Código da Vinci” antes de ler o livro.
Acho que a Igreja Católica não se deve preocupar com o facto de as pessoas pensarem que se trata de uma história verdadeira, julgo que a maior parte das pessoas percebe que se trata de ficção. Com o que a Igreja se deveria mesmo preocupar, é que, dada a história conhecida, muitos irão achar que se trata de uma ficção que poderia muito bem ser verdade…

Livros10 May 2006 8:35 pm

Depois de ter (finalmente) lido o O Perfume de Patrick Süskind, decido agora voltar-me para o tal livro que toda a gente leu. Falo claro do “Codigo da Vinci”, cuja leitura vou iniciar este fim-de-semana e que será o livro que levo como companhia na minha viagem de trabalho até Paris.
Confesso que não quero avançar muito a leitura em Paris. Dado que decidi levar o meu carro, não vou poder ler nas viagens e, como os dias serão ocupados a trabalhar, durante a noite quero aproveitar para conhecer um pouco melhor a cidade-luz. No entanto, sabendo que nunca durmo muito bem numa cama estranha de hotel, certamente que terei umas horas para descobrir a história que encantou tanta gente.
Daqui a uns tempos, já não poderei dizer que sou um dos poucos portugueses que não viu o filme “Titanic”, nem leu o “Código da Vinci”!

Livros24 November 2003 1:24 pm

No sábado dia 22 de Novembro de 2003, assinalaram-se os 40 anos da morte de John Kennedy. A comunicação social assinalou devidamente a efeméride, no entanto não vi referências aos 40 anos da morte de Aldous Huxley, que faleceu no mesmo dia que o presidente John Kennedy, e que é autor do melhor livro que li: “Brave New World” ou “Admirável Mundo Novo” em português. Foi também a um livro de Aldous Huxley: “The Doors of Perception”, que Jim Morrisson foi buscar a inspiração para o nome daquela que viria a ser a grande banda do final dos anos 60.
São factos que justificam a referência, e já que poucos se lembraram dele no dia em que se assinalaram os 40 anos da sua morte, aqui fica uma singela homenagem a um dos grandes escritores ingleses do século passado.

Livros12 November 2003 8:24 pm

“A diferença entre um capricho e uma paixão eterna é que o capricho dura um pouco mais”

O Retrato de Dorian Gray, Oscar Wilde

Livros22 October 2003 6:22 am

O amor nas palavras do grande Fernado Pessoa:

“Nunca amamos ninguém. Amamos, tão-somente, a ideia que fazemos de alguém. É a um conceito nosso - em suma, é a nós mesmos - que amamos.”

Livro do Desassossego, Fernado Pessoa

Livros14 September 2003 6:13 pm

“Vem por aqui” - dizem-me alguns com os olhos doces,
estendendo-me os braços, e seguros
de que seria bom que eu os ouvisse
quando me dizem: “vem por aqui”!
Eu olho-os com olhos lassos,
(há, nos meus olhos, ironias e cansaços)
e cruzo os braços,
e nunca vou por ali…

A minha glória é esta:
criar desumanidade!
Não acompanhar ninguém.
-Que eu vivo com o mesmo sem vontade
com que rasguei o ventre a minha mãe.

Não, não vou por aí! Só vou por onde
me levam meus próprios passos…

Se ao que busco saber nenhum de vós responde,
por que me repetis: “vem por aqui”?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
redomoinhar aos ventos,
como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
a ir por aí…

Se vim ao mundo,
foi só para desflorar florestas virgens,
e desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
que me dareis impulsos, ferramentas, e coragem
para eu derrubar os meus obstáculos?…
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
e vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
amo os abismos, as torrentes, os desertos…

Ide! tendes estradas,
tendes jardins, tendes canteiros,
tendes pátrias, tendes tectos.
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios.
Eu tenho a minha loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios…

Deus e o Diabo é que me guiam, mais ninguém.
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca princípio nem acabo,
nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções!
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: “vem por aqui”!
A minha vida é um vendaval que se soltou.
É uma onda que se alevantou.
É um atomo a mais que se animou…
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou,
-Sei que não vou por aí!

Cântico Negro, José Régio

P.S. Este poema, além da sua beleza, traz-me tantas recordações…

Livros9 September 2003 2:02 pm

Enquanto esperava que se iniciasse o meu torneio de xadrez, tive a oportunidade de visitar a exposição de homenagem ao poeta José Carlos Ary dos Santos, e esta foi, sem dúvida, uma das surpresas positivas da minha visita à Festa do Avante. A exposição estava muito bem organizada, enquanto numa televisão iam passando testemunhos sobre o poeta, alternando com imagens gravadas do próprio, declamando a sua poesia da forma que só ele sabia fazer, era possível ainda, ler os seus poemas, alguns na folha original em que tinham sido manuscritos.,
Foi um momento de grande descoberta, percebi que a poesia do Ary dos Santos é bem mais do que as músicas que eu sabia ser ele o autor: Putos do Carlos do Carmo, Desfolhada da Simone, Tourada do Fernando Tordo e poucas mais.
Não adquiri nenhum dos seus livros, mas vou fazê-lo brevemente.

Livros7 September 2003 2:15 pm

De silabas de letras de fonemas
se faz a escrita. Não se faz um verso.
Tem de correr no corpo dos poemas
o sangue das artérias do universo.

Cada palavra há-de ser um grito.
Um murmurio um gemido uma erecção
que transporte do humano ao infinito
a dor o fogo a flor a vibração.

A poesia é de mel ou de cicuta?
Quando um poeta se interroga e escuta
ouve ternura luta espanto ou espasmo?

Ouve como quiser seja o que for
fazer poemas é escrever amor
a poesia o que tem de ser é orgasmo.

Poesia-Orgasmo, José Carlos Ary dos Santos

Livros25 July 2003 5:26 pm

Há pouco tempo li o livro “1984”, de George Orwell, um daqueles livros que sempre tive curiosidade em ler, e cuja leitura fui adiando, até porque tinha a certeza de que ia acabar por lê-lo.
Antes de mais, devo aconselhá-lo vivamente a todos os que ainda não tiveram a oportunidade de o ler. É um excelente livro, que retrata uma sociedade em que as liberdades individuais foram totalmente suprimidas, supostamente para garantir o bem-estar de todos, mas na verdade, com o único intuito de perpetuar o poder da classe dominante, personificada na figura omnipresente do “Grande Irmão”.
É um aviso para o que poderá ser o futuro, e em muitos aspectos para o que já é o presente, com a perda da privacidade, e os avanços tecnológicos que permitem controlar as acções dos indivíduos. Lembra-nos que quando abdicamos da liberdade para obter segurança, perdemos a liberdade e arriscamos a não obter mais segurança em troca.
Tal como “O Admirável Mundo Novo”, de Aldous Huxley, é um retrato pessimista do que o futuro e o progresso tecnológico nos reservam, transformando os homens em autênticas máquinas, sem qualquer individualidade, dado que esta é uma ameaça para quem detém o poder.
Já agora, há mais dois livros cuja temática é semelhante, e que embora ainda não tenha lido, tentarei ler nos próximos tempos. Falo de “Nós”, de Eugene Zamyatin e de “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, este último a ser editado na colecção “Mil Folhas” do Público, no final de Agosto, e que poderá ser adquirido pelo simpático preço de € 4,20 (é o que eu vou fazer). Já agora, lembro-me que quando vi o filme baseado neste “Fahrenheit 451” – devia ter cerca de dez anos – adorei o filme, e está num lote dos que pretendo rever, onde incluo também o “Brazil”, realizado pelo Terry Gilliam, que vi há alguns anos atrás por influência do meu irmão e cuja inspiração é claramente o “1984”.
Espero que estes livros e estes filmes, vos ajudem a questionar o mundo onde vivemos e o rumo que ele segue.

Livros, Sociedade16 July 2003 8:35 pm

No ano passado, a propósito das alterações registadas na RTP, muito se discutiu o serviço público de televisão. Tenho uma opinião sobre o que deveria ser este serviço público na RTP, aquele que os portugueses terão de pagar, seja directamente através de uma taxa, seja indirectamente através de transferências do Orçamento de Estado.
Mas não é sobre o serviço público de televisão que escrevo hoje, é sobre outro, prestado por dois jornais diários portugueses, e que tem a grande vantagem de não trazer custos para o Orçamento de Estado. Falo das iniciativas que o “Público” e o “Diário de Notícias” promovem, de permitir a aquisição de livros a preços bastante acessíveis juntamente com o jornal do dia. É claro que poderá haver quem diga, na tentativa de retirar o mérito destes dois periódicos, que o objectivo foi o de aumentar as vendas, fidelizar leitores e até que os livros não estão a ser vendidos abaixo de preço de custo, pelo que o objectivo foi o lucro. Provavelmente estarão certos, mas quem disse que o serviço público implica necessariamente perder dinheiro?
Estas iniciativas permitiram, sem dúvida, aos referidos jornais aumentar as vendas, principalmente nos dias de distribuição dos livros, mas tem também contribuído para o aumento do número de leitores em Portugal. Como sei isto? Sou utilizador frequente de transportes públicos, e tenho reparado, que o número de pessoas que durante as viagens lêem livros tem aumentado significativamente, e muitas vezes os livros em causa são os das colecções referidas, em especial a “Mil Folhas” do Público, que tem o grande mérito de aliar uma edição em “capa dura” de qualidade razoável a uma excelente selecção de livros, que percorre os grandes autores do século XX. Não tenho dúvidas em afirmar que esta colecção fez mais pelos hábitos de leitura dos portugueses, do que as campanhas promovidas pelo Ministério da Cultura.
A boa notícia, é que depois de mais de 4.000.000 livros vendidos (não é gralha, são mesmo quatro milhões), o Público decidiu fazer uma 3ª série da colecção “Mil Folhas”, e vai permitir que os portugueses adquiram mais 30 excelentes obras da literatura contemporânea a preços bastante acessíveis. Por mim, já estou a pensar onde vou arranjar estantes para mais estes livros…