Ontem quando "conversava" com uma amiga (e também ex-namorada), conversa entre aspas porque foi feita através do computador e nunca sei qual o verbo que devo utilizar nestas circunstâncias, ela disse-me que sentia que eu estava perdido e que não estava feliz. Ora, partindo do princípio que a pessoa em causa não tem poderes mágicos, e dado que ela não falava comigo há algum tempo, isso significa que ela chegou a essa conclusão pelo que escrevo no blog. Não sei se terão sido as referências ao poker que ela, como tantos outros, considera ser uma actividade imoral. Na verdade não me sinto perdido. Tal como naquela anedota da mãe que ao ver o filho desfilar numa parada militar comenta com orgulho que o filho é o único a marchar no sentido certo, eu sinto que é mais o mundo que está perdido do que eu próprio. Olho à minha volta e vejo pessoas que só se preocupam com as aparências e com as opiniões dos outros. Que procuram não o que os faz sentir felizes, mas antes aquilo que lhes dizem que os farão felizes.
Quem ler os objectivos que me propus atingir nos próximos meses, percebe algumas das coisas importantes para mim. Vão também perceber que a única referência que faço ao trabalho é a de tentar reformar-me mais cedo do que a idade normal de reforma. É verdade, admito que trabalhar não me dá prazer, faço-o para ganhar o dinheiro que preciso para as minhas necessidades e para poder fazer as coisas de que gosto. E sempre pensei que estivesse no grupo maioritário. Achava eu que o funcionário público que passa o dia a vender impressos numa repartição, a menina que dobra centenas de camisolas numa loja da Zara, o operário que aperta milhares de peças exactamente iguais, o empregado da caixa de um supermercado que mecanicamente passa os produtos pelo leitor de código de barras, no fundo, 99% das pessoas que não têm a sorte de trabalhar em algo que fariam mesmo que não fossem pagas para isso, dizia eu, que achava que estas pessoas só o faziam pelo dinheiro, e que de bom grado se não precisassem do ordenado ao fim do mês trocariam estas actividades, por algo que lhes desse mesmo prazer, nem que fosse passar o dia sentado numa praia a admirar a beleza do Mar. Mas experimentem dizer a alguém que prefiriam não trabalhar e que só o fazem pelo dinheiro. No mínimo serão olhados de soslaio, como se de parasitas se tratassem que quisessem explorar o sacrifício dos outros.
Mas serei o único a achar estranho que em pleno século XXI, depois de inúmeras revoluções tecnológicas, a maior parte das pessoas trabalhe oito horas por dia e até aos 65 anos. Não era suposto as máquinas substituirem o Homem nessas tarefas de modo a libertá-lo para outras actividades?
Ter vindo trabalhar para o Luxemburgo trouxe-me algumas vantagens, por exemplo o enriquecimento do contacto com pessoas de toda a Europa, mas se tivesse que escolher qual a principal vantagem, não hesitaria que é a possibilidade que o maior ordenado me dá de tentar estabelecer um plano para me reformar por volta dos 55 anos, mantendo um rendimento que me permita uma vida confortável.


Concordo que o trabalho é um mal necessário. Mas a minha percepção da opinião da maioria das pessoas a este respeito é diferente da tua. Acho que quase todos assumem que não trabalhariam se não precisassem dos euros.
Porque é que toda a tecnologia que já existe não nos dispensa de trabalhar? Porque a mão-de-obra que é libertada nas actividades tradicionais pelo aumento de produtividade é ocupada em novas actividades. E não se vê um fim para isto. Pessoalmente, tenho pena que assim seja. Andamos todos a produzir bens e serviços bem menos úteis do que o tempo livre que poderiamos ter em alternativa.
Comment por Miguel — 8 July 2007 @ 10:05 pm
É óbvio que o dinheiro é importante e é o que faz girar o mundo. Todos lutamos para alcançar um melhor nível de vida mas será que depois não estaremos a deixar de dar importância aos bens imateriais e deixar que o rumo das nossas vidas seja apenas guiado por ambições materiais? O que interessa termos dinheiro e bens materiais se depois não temos com quem partilhar? A partilha e o contacto humano é um dos bens mais preciosos que podemos usufruir etirar da vida e é certamente o que nos faz mais felizes. Há que também ponderar as nossas opções de vida em função desses bens que não se podem comprar.
Comment por Anonymous — 8 July 2007 @ 11:25 pm
Boas
Não estás sozinho Parreira. Concordo em absoluto que o Homem não nasceu para trabalhar mas para fazer o que lhe apetece. Não existe maior desperdício do que “obrigar” uma das mais perfeitas máquinas criadas pela natureza a trabalhar 8 horas por dia, 5 dias por semana, e por ai adiante. Também eu aspiro a fugir a esse estúpido destino que as ditas sociedades modernas criaram para os seus cidadãos. Desta vez estamos de acordo. Fica bem e um abraço!
Comment por verbal — 9 July 2007 @ 7:13 pm
fica sem se perceber o que é que a primeira parte do post tem a ver com a ultima… parece-me um bocado perdido, pelo menos no discurso.
Comment por Anonymous — 10 July 2007 @ 12:38 pm