Não estava a pensar voltar a este tema, pelo menos antes de saber os resultados da votação, mas as últimas propostas de alguns dos defensores do Não (Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa) a isso me obrigam.
Não consigo perceber o que estes senhores defendem. O aborto continuaria a ser ilegal, mas não aconteceria nada a quem o praticasse. Isso não é o mesmo que aprovar a liberalização, mas com piores condições para quem pratica o aborto? Assim, o aborto poderia ser feito em "vãos de escada", mas não em hospitais com o mínimo de condições. É o problema de tentar agradar a gregos e troianos!
Acho que só há duas visões deste problema, ou se defende que o aborto é um acto reprovável que deve ser alvo de alguma penalização, e quem achar isso deve votar Não no referendo. Ou então, que quem aborta o faz sempre como último recurso e que, por isso, não deve ser julgada. Os que defendem esta posição, que me parece ser o caso de Marques Mendes e Marcelo Rebelo de Sousa, devem simplesmente votar Sim, porque se a mulher é livre de fazer o aborto, ao menos que o faça com o mínimo de condições.


Uma citação de um artigo que li no “Le Monde” para reflectir: “Que a liberdade de dar ou não nascimento a uma criança esteja inscrito na lei a partir de agora é evidentemente capital no plano simbólico. Mas esta liberdade jurídica continua a ser formal se a liberdade psicológica continuar a faltar. Vejamos o exemplo da Holanda: é um país onde existe uma lei mais liberal em matéria de aborto, e ao mesmo tempo o que regista a taxa de aborto mais baixa do mundo… Prova que os dois não são contraditórios.
Na França, em contrapartida, o número de IVG (n.d.T.: interrupção voluntária da gravidez) continua a ser anormalmente elevado (13 a 14 por mil mulheres em idade de procriar). Porque razão isso acontece? Porque não se diz suficientemente às mulheres que se trata também de uma prova física e moral. Enquanto a IVG permanecer para as mulheres um símbolo de ‘libertação’, submeter-se-ão a esta sem protestar, por mais desagradável que seja. E o mesmo acontece com a contracepção. Os produtos vendidos às mulheres para controlar a sua fecundidade são fabricados por multinacionais dirigidas por homens, que se preocupam muito mais com os lucros que lhes darão esses produtos do que com a libertação das mulheres. Enquanto isso não mudar, as feministas não poderão elogiar-se de ter conquistado o controlo da sua fecundidade.”
- Yvonne Knibiehler (84 anos), historiadora francesa e feminista assumida, numa entrevista intitulada “O feminismo tem que repensar a maternidade”, de Catherine Vincent, publicada no “Le Monde”, p. 12, suplemento “Le Monde des Livres”, edição de 09/02/2007
Comment por weytjens — 11 February 2007 @ 10:53 pm
A IVG foi legislada em França há 30 anos, sem referendo, numa atitude de plena e consciente percepção de que se os avanços civilizacionais só acontecessem sustentados em maiorias ainda andávamos todos de tanga (literalmente). Tenho a certeza de que a maioria das mulhereses portuguesas que recorre à IVG não o faz sob a bandeira da libertação feminina, só baixando o mastro para entrar no vão de escada. Talvez daqui a 30 ou 40 anos seja lícito voltar a este tipo de considerações, em Portugal. Por agora, só interessa mesmo é acabar com a situação vergonhosa que temos.
Comment por Fialho — 12 February 2007 @ 9:41 am