Hoje, um leitor de seu nome Fialho deixou-me um comentário ao post que eu tinha escrito sobre o referendo do aborto, dizendo que estava feliz por eu não poder exercer o meu direito de voto.
Presumo que se trate de alguém que defenda a despenalização e liberalização do aborto até às dez semanas de gestação. Não sei se terá sido uma piada (assim espero), ou se reflecte uma falta de cultura democrática. Eu, apesar de não ter (presumivelmente) a mesma intenção de voto deste leitor, espero que ele possa exercer o seu direito de voto. Aliás, o ideal seria que todos fossem votar, para que este referendo possa auscultar qual é verdadeiramente a opinião da maioria da população portuguesa.
Este comentário fez-me lembrar os torneios de xadrez que disputava em Portugal, em que alguns jogadores ficavam muito contentes quando ganhavam por falta de comparência. Eu sempre preferi jogar, mesmo sabendo que assim corro o risco de perder!


Amigo LP,
apesar de eu ser pelo SIM. Prefiro ganhar quando todos votamos.
Gostei deste post
bizz
mjb
Comment por mjb — 29 January 2007 @ 11:19 pm
Tenho boas notícias para si. Não foi uma piada. A minha tão curta e cândida mensagem, recebida como eivada de maldosas intenções, tão maldosas que o obrigaram a desenterrar o machado da cultura democrática, foi de puro regozijo: é que também eu vou estar no Luxemburgo e não vou votar! Como expressaríamos vontades diversas, a sua ausência é compensada pela minha, pelo que, seja qual for o resultado do referendo, poderemos ainda considerá-lo a expressão da sacrossanta vontade democrática dos portugueses! Já viu que maravilha?
Quanto à democracia, só lhe posso dizer que ainda a considero o menos mau dos regimes políticos. E se digo o menos mau e não o melhor é porque, todos o sabemos, se presta muito bem a manipulações que nada têm de democrático. Ou talvez até tenham. (Depois de o caro arguente ter defendido a rainha com a cultura democrática, é natural que eu avance o peão do caciquismo. Só lhe peço, por favor, para que mantenhamos o nível desta troca de impressões, que não jogue o polícia a comer o iogurte do Gato Fedorento.)
Mas adiante. Serve isto para lhe dizer que não reconheço os argumentos da maior parte dos defensores do «não». Deixo de parte a grande imensidão daqueles que vão votar «não» porque alguém lhes disse que sim. A vontade popular não é fonte de sabedoria, e muitas vezes é mesmo sinónimo de pouco esclarecimento, como a idiotice da Maria da Fonte, que não passou duma reacção tacanha e conservadora a duas medidas políticas modernas e esclarecidas, a saber, a elaboração de um cadastro predial e a higiénica proibição de continuar a inumar os mortos dentro das igrejas.
Quanto aos outros, os que vão votar «não» porque pensaram mesmo no assunto, só lhe deixo os religiosos (no sentido mais estrito do termo): não contesto vocações, e a liberdade religiosa faz parte do mais lato conceito de liberdade que julgo devermos sempre associar ao de democracia. (Pode aproveitar para os colocar todos em cima da torre e fazer roque.)
Sobram os defensores da vida, aqueles que acham que um embrião é um ser humano, motivados por razões que lhes são fornecidas por aquele grupo de indivíduos que lhe sugeri há pouco que empilhasse aí em cima da torre. E aqui é que que são elas!, porque nestas questões da vida, só há duas concepções possíveis: a sagrada e a biológica. A segunda entende que um embrião é um embrião. Ponto final. A primeira, que um embrião é matéria já insuflada por um sopro divino, e portanto expressão da vontade de Deus, logo, sagrada.
Esclarecendo: o meu não reconhecimento dos argumentos deste último grupo de cidadãos advém do facto de, não estando eles empilhados no alto da torre, junto dos religiosos, junto de Deus, defenderem opiniões que são as da Igreja, e que só podem ser defendidas de um ponto de vista religioso (o Paulo Coelho não conta).
Onde andam eles quando a Igreja lhes diz que não podem ter relações sexuais fora do matrimónio, ou que a única função da cópula é a reprodução? A isto chamo eu hipocrisia, e fraco argumento para contrapor à ignomínia do aborto clandestino a que se têm de sujeitar milhares de mulheres em Portugal, ignomínia essa ultimamente agravada por processos jurídicos vergonhosos.
A questão da interrupção da gravidez é biológica e social, e é enquanto questão social que deve ser encarada pelo Estado (laico) português. As crenças e questões religiosas fazem parte do foro privado dos cidadãos, que não as devem querer impor aos seus iguais. Se o «sim» vingar, nenhuma mulher vai ser obrigada a abortar, contrariando a sua vontade ou as suas crenças religiosas. Se o «não» prevalecer, muitas nossas concidadãs vai continuar a ser forçadas a escolher entre o famoso vão de escada (ou Espanha, ou as clínicas inglesas frequentadas pelas filhas dos mais acérrimos defensores do «não»… se tiverem dinheiro para isso), seguido ou não de um penoso processo legal, e a conclusão de um processo biológico que culminará no nascimento de mais uma criança não desejada.
Comment por Fialho — 29 January 2007 @ 11:41 pm
Fialho,
Espero que não leve a mal que o trate pelo primeiro nome. Agradeço que tenha voltado a este espaço e tenha comentado o post que escrevi na sequência do seu comentário.
Pelo que percebo está ou estará no Luxemburgo, aceite por isso um abraço de um colega emigrante.
Quanto ao aborto e ao referendo, devo começar por esclarecer que não sou religioso. Não são por isso as convicções religiosas que fundamentam a minha opinião. Diz no seu comentário que a ciência é unânime que um embrião é um embrião. Na verdade, a definição clássica do embrião vai só até às sete semanas de gestação, a partir da oitava semana já se designa por feto. Seja embrião, seja feto, a verdade é que na ciência não há um consenso sobre se estamos perante vida humana. Na minha opinião é de facto vida humana que deve ser protegida de uma forma muito especial pela fragilidade e dependência que apresenta.
Claro que não sou a favor do aborto clandestino, aliás espero que o Governo Português, seja qual for o resultado do referendo, proporcione os meios para evitar o aborto. Seja através da informação e do acesso generalizado aos meios contraceptivos, seja proporcionando às famílias de menores rendimentos os meios para criarem os filhos de uma forma condigna.
Não quero impôr a ninguém crenças religiosas, ou no meu caso, a ausência delas. Não consigo é compreender porque razão um aborto realizado às dez semanas será feito nos hospitais públicos, enquanto que um aborto às onze semanas terá de ser feito clandestinamente e será crime punível com pena de prisão. Talvez o Fialho me possa explicar o que acontece às dez semanas que um acto que, em caso de mudança da Lei, é apoiado pelo Estado até essa altura, passe a ser um crime punido pelas Leis aprovadas pelo mesmo Estado. Será que sou só eu que acha que se o feto não é vida humana às dez semanas então também não o deveria ser às onze?
Fala que a conclusão pode ser o nascimento de uma criança não desejada. Sobre isso posso dizer-lhe que certamente muitos milhares de crianças que não foram desejadas aquando da sua concepção, acabaram por ser muito amadas e desejadas pelos seus pais. Aliás, o contrário também se verifica, muitas crianças que resultaram de uma concepção voluntária, acabam depois no futuro por serem vistos como um empecilho.
Algumas coisas mudaram desde o último referendo, nomeadamente hoje há distribuição gratuita da pílula do dia seguinte nos centros de saúde e hospitais. Ela permite acautelar a gravidez em caso de relações sexuais desprotegidas. Por isso, hoje acho que há ainda menos motivos para votar sim no referendo.
Agradeço a sua visita a este espaço, e espero que passe por cá mais vezes e deixe os seus comentários, em especial quando não concordar com o que eu escrevo. É bom, e enriquecedor, ler opiniões diferentes.
Comment por Luis Parreira — 30 January 2007 @ 1:14 am