Na segunda-feira, recebi de um colega de trabalho a carta que um leitor da revista Visão teria enviado como resposta a uma crónica escrita por Ricardo Araújo Pereira, em que este gozava com a possibilidade de Salazar poder vir a vencer a eleição do programa da RTP "Os Grandes Portugueses".
Os argumentos apresentados por este leitor da "Visão" para defender Salazar são aqueles muitas vezes repetidos, aos que ele acrescenta alguns mais originais, sendo o meu preferido que embora ele nunca se tenha submitido ao voto popular, se o fizesse teria ganho. Depois ainda refere que ter a censura era melhor do que ler a informação que temos hoje, e evitaria ler crónicas como a que Ricardo Araújo Pereira escreve.
O envio desta carta por parte do meu colega não foi inocente. Já algumas vezes tínhamos discutido Salazar e a guerra colonial, e o email vinha nesta sequência. Enviei logo um email a refutar estes argumentos, ao que se seguiria a contra-resposta de outro dos meus colegas defensores do Estado Novo. Ele terminava a sua resposta dizendo que Salazar foi um grande homem. Confesso que aceito que a avaliação do carácter de uma pessoa seja algo subjectivo, no entanto há certas regras que me parecem universais e que não permitem, em circunstância alguma, considerar Salazar um grande homem:
Salazar foi alguém que mandou prender, torturar e até matar os seus adversários políticos. Criou uma política de terror e medo, que fazia com que as pessoas tivessem medo de comentar o que quer que fosse, pois nunca se sabe onde estaria o "bufo". Julgando-se acima de todos, decidiu que deveria ser ele sozinho a decidir o futuro de um país, em vez de permitir que o povo escolhesse livremente o seu caminho. Perseguiu os artistas e pensadores que não se reviam na sua ideia de Portugal, em que éramos todos pobres mas felizes, as mulheres tinham bigode e os homens bebiam vinho nas tabernas, ajudando assim um milhão de portugueses. Decidiu manter um regime colonialista, não reconhecendo aos povos africanos a soberania sobre a sua terra. Para esse efeito, decidiu hipotecar a juventude do nosso país numa guerra que muitos sabiam ser injusta.
Também acho piada ao comentário que os defensores de Salazar sempre utilizam, que ele era alguém que não enriqueceu com o seu cargo. Na verdade, ele não queria riqueza para ele, mas também não queria para o resto dos portugueses, para que pudessemos viver no Portugal rural que ele tanto admirava. Mas voltando à incorruptibilidade de Salazar, mesmo que seja verdade, e não digo que não o seja, as pessoas que destacam este factor esquecem-se que há valores mais importantes do que a incorruptibilidade, por exemplo, a liberdade. Acho que precisa fazer uma revisão urgente de valores, quem acho que o facto de se ser incorrupto justifica tudo o que referi anteriormente.
Para terminar só quero dizer uma coisa ao Pedro Mota que escreveu a carta, bem como aos que outros que defendem a figura de Salazar: Discordo profundamente da vossa opinião, mas se alguém tentasse impedir-vos de a expressar, estaria do vosso lado na luta pela liberdade de expressão.